terça-feira, 15 de novembro de 2011

Ágatha de Cristo

Toda corcunda,
Menina torta,
Reclinada no pesar das horas
Estava a cantar...

"Lá vai crescendo
depois do inverno
das folhas secas
uns passarim...
menino bom,
Quando se encrenca
é só me ver
Que se embora vai
toda a cólera,
sem ir se ir
todo o seu carim"

Toda corcunda
Menina torta
-Que fazes a cantar por aqui?
Não te ensinaram,
Das felicidades desses cantos daqui...
Te vai seguindo...
Que sou tão rápido,
E te tropeço no caminho!

Toda corcunda
Menina ingênua,
Se intromete a perguntar:
-Mas quem é tu?
Que nunca por essas bandas daqui!

Respondeu feito o diabo,
o próprio encarnada ali...

Assustada, a menina torta
Foi se logo dizendo do
Seu padre quase santo
Que a benzera assim:

"Santo pai,
abençoai essa menina
que sem maldade
e sem juízo...
cata lixo
cata roupa,
e uns sapatos pros irmãos
de idade pouca.
Ajuda o pai,
Ajuda a mãe,
E ainda alimenta os
Passarim..."

Mas ao cantar a oração,
Todo sem perdão
Se indignou todo o diabo...

- Te calas a boca,
Que gente esperta
Sem tem comigo!
Não me queiras inimigo
Que te corto o umbigo
e te faço feitiço:
Te viro pedra
Sempre pedra
Sem cantar...

E toda torta,
Quase sem folêgo
Os olhos grandes
Danou a questionar:

-Mas que mal que fiz
Se na missa domingo sempre vou?
Me deixes seguir
Que levando o feijão
Que é de jantar...

Não te ponhas no caminho
Que sou tão rápido e te
faço tropeçar!

Toda medrosa
Menina torta
Se põe a chorar...

Diabo ruim
Não gosta de prosa
E manda ela calar.

Toda corcunda
Cheia de lágrimas
e de feijão,
Pedi perdão
E sem aceitar
O diabo estranho
Te quer as mãos
E não adianta rezar!

Toda sem jeito
Cheia de medo
De choro
E de feijão...
Deita o teu corpo
Pra o moço
Se ter com ela.
Logo ela,
Cheia de sonhos
e de passarim...


Pablo de Souza