Era fácil afirmar em Deus naquele
momento a minha capacidade de optar por ser livre. E ser livre era estar sem Ele. Sem Ele...
meus momentos seriam arranhões e fisgadas e estalos de realidade itinerante
nada constante. Meu dias para mim mesmo seriam como ser baratas, estranhas o
tempo todo, nojentas e repelentes.
Acordei rouco e fraco. Inspirado
pela manhã convalescente, ponho-me a ouvir o Tom Waits, não que ele seja fraco,
mas sua rouquidão punge meu café e não me agita. Uma manhã pintada feito
paisagem morta, retratando nosso prato frio.
Vou ao banheiro, mijo e rijo o
espelho e os dedos molhados. Molho em água fria , o rosto. Acordo quase sem
vontade. Sem vontade é meu verbo, meu sujeito. E minhas ações correspondem a
falta de querer o querer fazer sentido.
Caminhar por entre o seu
dia-a-dia e de noite querer sorrir o que não se aproveitou no dia, conectando o
sentindo e conjugando os passos rumo ao que se perdeu.
Em cada mão uma sacola vazia,
vazia como o próprio espectro do que é, porque nada está, se não a própria
ideia. Permutando a vontade, abre o zíper e estala o inquieto sono. Cansa-te e
acelera-te o peito.
Dorme!
Do sal o exato sal. Porque te
sinto? Respiração pesada, cansada. Correste? Suponho que é só fuga. Do sal o sal e da vontade a embriaguez. Produto degenerativo da saliva-instinto dos gametas em pares.
Concorrendo com os dicionários a
inteiriça vontade de significar. Gota-a-gota: o sonho. Sinto o cheiro do
perfume que nunca senti; fragrância existencial do umbigo: vínculo.
Fôlego! Suspiro, alívio. Cabe o
sono, o descanso, o peito quieto.
Fantasia! Ver o futuro para o
sossego é fácil, é fácil pensar no futuro e tapar o vazio do ente oco, oco… é o
eco ressoando tua instância: oco!
Eficaz é o tempo, vestido de dias
passando, fazendo tua pele não ser mais a juventude. E o que fazes? Corre o
gesso, o curativo, a tarja, tarja-preta.
Acelera e deprecia… é bruto
contar assim. Não sou sujeito-social apartado do meu sujeito-subjetivo;
penetrante, atento: sujeito-ação, ativo nos verbos de teus jeitos, ora
passivos, submissos, aceitos.
Corri! Suei, óleo brotado. E na
superfície do tangível, escorre a água fria do chuveiro, enrijecendo a carne
nua.
Gota-a-gota, a chuva sem saber
distorce a tinta do papel, desfazendo o construído à punho, revelado, surrado,
no entanto, feliz.
Carismático pó: que alimenta,
veste, inunda e fere. A dor e a dor de estar no corpo-ser do enquanto.