Entre quatro paredes ornamentadas com palavras do código sagrado, o retângulo de concreto entelhado, encontrava-se organizado com os seus bancos de madeira, feitos para acomodarem alguns fiéis do culto.
Vestidos estavam à la rigueur , a carater em função dos papéis ali a serem desempenhados naquela noite de assembléia de inertes.
Não se sabe de que negócio se trata, não se sabe de seus possiveis capitais e fluxos financeiros. Mas ‘a casa de Deus’ aglomera o circo dos desesperados. E o tal e tanto desespero é extiguindo mediante doação de moeda. Fato milagroso, poderia ser afirmado.
Mas que falácia! Não basta todo o paraíso, terras celestes e divinas; Deus ainda inventa de manter negócios aqui na Terra, haja vista essas inúmeras igrejas espalhadas por todas as esquinas destas pobres cidades.
O homem não evoluiu ao ponto de poder assumir seus proprios medos, desesperanças e cóleras. É tão fraco e tolo que se deixa levar por calúnias que acreditam ser a cura para os seus pecados.
Quem inventou o pecado? Talvez o mesmo malicioso e tão profundo conhecedor do divino, que se utilizou destas ideologias para propagar as disposições e permissões de algum ser incolor, invisível, imóvel.
De tão astuto que se sabia poder utilizar da ignorância alheia para lhe tirar algum dinheiro e ainda pregar o comportamento mecânico do permitido e do proibido.
Este que com a pior de todas as ideias, tirou do Homem a liberdade, a livre escolha, os caminhos laterais, as outras maneiras de se alcançar o mesmo caminho.
As centenas de milhares de retângulos de concretos entelhados, das arquiteturas mais humildes às mais belas, logo mais valiosas, instituiu no Homem o silêncio, o pior dos silêncios. E esta interrupção de auto conhecimento é a escuridão, infinita. Mas limitada no sentido de se impor limites ao livre pensamento.
É necessário que toda uma nação saiba ler. Ler mesmo! Ler! Saber o que significa cada palavra, cada sentido subjetivo, e sendo pessoal, somente pra ti guardar.
O mundo é hoje toda uma confusão, toda uma briga, que se deve a existência de tantos ‘eus’, a essa supervalorização do individual. Da mais bela unha pintada, do melhor cabelo, da melhor música, do mais criativo. É de obrigação que se manifeste um egoismo ao exterior, ao que querem os outros.
Mas como manifestar a universalização dos valores? O ser rijo, imbatível, o bem supremo pelo qual se conflitam tantos e tantos, é também o amor supremo, a verdade absoluta. Tanto coro, tantos hinos, tanto sangue, tanta guerra santa…
Quem Bem é este? Quer dizer que agora dois cálices cheios de sangue podem ocupar o mesmo lugar?
Fulguras, ó mentira! Que incendeia os corações humanos por algumas horas do culto e missa, mas que na rua são completos desconhecidos. Ao primeiro que ousar arremessar a pedra, cabe ao atingido devolvê-lo com o auxilio de outros dez amigos. A Lei é o olho por olho.
Ó, vergonha que sinto! Que tremor me atinge o corpo. Cabe a caridade a ajuda ao faminto, não destas palavras, mas faminto de comida mesmo. Ajuda ao por morrer, mão quente ao que sente frio. Curativos novos ao que vivem na rua.
Fiéis são do tão pouco humano! Ao falido humano! Seguidores do etnocentrico, do mais integro e perfeito. Mas o perfeito não há!
Qual melhor manifestação desse tal deus que envocam, se não na prória Natureza. Na perfeita disposição das folhas de uma árvore. No nascer de qualquer animal das vísceras ensanguentas. Na Terra como um planeta. No beijo, no roçar dos corpos, no suor. Qual melhor manifestação? Que da chuva, do Sol, da própria Vida.
O Homem que a partir da Natureza não conseguir perceber alguma inspiração, este é dos que Nietzsche dizia existirem: os que já nascem póstumos.
E ainda se pode completar, com palavras do poeta Augusto dos Anjos: “A mão que afaga é a mesma que apedreja” -Versos Íntimos.
Parafrasea-se, caminhando por estas palavras: a mão que carrega o livro do Senhor, é a mesma que apedreja indefesos animais.
Que ninguém absorva estas palavras, nem de modo positivo ou negativo. É uma pessoal reflexão das estranhas e afetáveis manifestações humanas. É necessário pensar! Mas pensar em si mesmo, por si mesmo!
Pablo Alves.