sábado, 28 de abril de 2012

Gritamos nossos espelhos


Como são sutis as noites de sábado, sutis quando se fala em poder respirar até encher os pulmões sem preocupações e sem pressa de respirar, pois o dia seguinte é domingo e vamos dormir até mais tarde.

A turma já tinha sido avisada desde a quarta-feira, quarta já é véspera de fim de semana. Como é bom saber da existência dos fins de semana, melhor então é vivê-los… que grande pecado comete aquele que não existe às sextas, sábados e a tardes de domingos, cada um tem uma energia única!

Domingo era sabido que iamos ao Parque (da Cidade), porquanto aquela noite de sofá da sala, um show da Legião e outro do Cure que conseguimos milagrosamente através da Internet, as bebidas bem geladas que não podiam faltar (sem elas ficariamos apáticos e sem assunto) e uma boa dose de dor de cotovelo e amores não correspondidos sobre os quais falariamos depois de uns copos de vinho.

Eu ria-me da nossa capacidade de discussão sobre os problemas globais: a política que se aninhava a tal da Justiça, que por sua vez tinha as mãos coladas com super bonder aos rastelos do Estado. Sempre comentavamos Astrologia, que de certo modo lustrava o nosso ego (nunca ressaltavamos os aspectos ruins de cada signo)

O primeiro de nós era sempre o primeiro a chorar, era feito criança, mas dessas que reclama que ninguém abraça, mas que também estranha quando o recebe. Chorava e chorava e engulia a bebida!

 Eu estava ali, rechonchudo de expectativas para o dia seguinte, porém recolhido e ouvindo os comentários dos outros que ali naquela sala me faziam companhia.

Tomei mais um copo e como sempre, ao perceber certas confusões mentais e corpóreas, após os vários vinhos, eu me prometia a liberdade! E nela estava afincando e trocamos figurinhas de paisagens bucólicas, singulares e felizes…

A Aninha estava entre mim e o Pedro. Do canto do sofá onde eu havia me posto, era ponto de estratégia para que dali eu ficasse espionando os pêlos das pernas do Pedro. Como eu amava acompanhar aquele desenho de corpo e vida! E aquela boca circunspecta. Ele sempre cheio de toda aquela masculinidade e ao mesmo tempo todo menino. quanto encanto em um único sujeito.

A Aninha bem sabia da minha derrota…eu estava no inferno de tanta paixão por ele, mas estava em processo de recuperação e limpeza…

Mas não hesitava em exibir aquele olhar de quem muito deseja e deseja e quer… quer morder, quer tudo:  todo corpo e o suor e as mordidas!

Rimos nós dois: Eu e Aninha, no momento em que em deslizei meus pés na perna dela, na tentativa de chamar a atenção de quem estava no outro extremo daquele assento.

Fiquei puto derrepente, porque tenho lá os meus momentos bipolar, não nego! Levantei-me, tirei o show que estava passando e comecei a procurar na bagunça de CDs da gaveta um disco qualquer. Encontrei o do Cartola… “deixe-me ir, preciso andar, vou por aí a procurar, rir pra não chorar…” Pronto! Acabei-me todo. Bebi mais um copo!

Sentei novamente no mesmo lugar. Que puta vontade de estar sentado em outro canto, em um colo de alguém, mas não podia. Havia muitas regras e não me dou bem com as regras…
 Subitamente a Aninha se levantou e foi até o banheiro. 

Todos nós que ficamos ainda ali na sala, nos olhamos e então o comentário coletivo: não durma no banheiro de novo… Ela sempre dormia no vaso sanitário e era uma frustação tentar acordá-la, porque na tentativa, não só a acordávamos como também todos os vizinhos.

E o  Cartola cantava longemente e eu cantarolava em cabeça: e tudo o que ofereço é  meu calor, meu endereço… o que não tinha nada a ver a com ele!

Derrepente e é lógico que não esperavámos, a Aninha soltou um berro do mais alto volume lá dentro do banheiro e num salto eu corri para ir ver o que havia acontecido…

Ficamos ali na porta, os quatro, junto à Ana, pálidos de susto, amarelinhos… misturado ao silêncio da perturbação e me perguntei: que diabos ela viu, por acaso algum fantasma, um espírito, sei lá… aquele palhaço horrendo de estranho do filme do Stephen King? Não sabíamos.

Ela continuava encostada na parede, de pé e olhando para o espelho. No improviso e em poucos instantes estávamos todos olhando para o mesmo ponto, aquele que nos mostrava o que suspeitávamos conhecer que éramos nós mesmos.

Pude perceber as gotículas de creme dental respingados ali naquele superfície reflexiva. E de tão reflexiva que fez a Aninha gritar a todo pulmão!

É! Havia concluído: era o súbito dos olhos que ela via ali, vazios, desconexos, o busto magro, o corpo todo esguio.

Como nunca eu podia ter notado aquilo? Eu jamais havia olhado em meus próprios olhos e feito sequer alguma pergunta a mim mesmo. Tinha sido por covardia? E me conduzia aos obstáculos e denúncias do meu pequeno sujeito interior: sujinho. E como havia sido eu um estúpido. Todas as coisas lindas, os detalhes mais pudicos eu lhe tinha posto por olhos a dentro e via em você o que gostaria de ver em mim. Talvez.

Nos despedimos no portão e cada um seguiu um rumo para casa. Fui para a cama e fiquei  aguardando aciosamente a tarde de domingo que estava por vir… era sempre naqueles instantes que eu me esquecia: de mim e de você, nos bares cheios de solidão!

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Ópera da Fome: as flores


Guardei os restos da flor, daquela que havíamos encontrado no meio da rua. Como combinado: eu ficaria com uma parte e você com outra, mas acho que você levou a vantagem… tenho hoje apenas três petálas e um pedacinho de folha.  Ficaram tão diferentes desde aquele ilustre dia de uma manhã nada igual. Amanhacemos a nossa estrada chutando flores. Que bom, não é? Mas sempre ficam as dúvidas. Se foram jogadas por sua árvore, significa que estão fadadas a morte escura em poucas horas.
 
Lembro-me que quando nos deparamos com aquela rua toda tomada por aquele amarelo, intenso, pegamos a mesma florzinha, recolhida e tímida. Pegamo-lá com tal desejo que era o mesmo de quem sente grande fome. Os nossos dedos desejavam aquele sentir… como queria apertá-la, mas sabíamos que era tão frágil, tão simples, tão qualquer coisa de vulnerável, que a machucaria qual o golpe ao cair ao chão.
 
Percebi nós dois como únicos no mundo naquele instante, além da árvore e de suas flores caídas no asfalto sujo, cheio de restos de outros dias. Quão silenciosos são os instantes de contato.
 
Guardei a flor! E eu que até então era um boneco de lata, surgia-me um pungente coração: de pétalas amarelas. Eu sentia bater e florescer dentro de mim cada vez mais e mais… E como conter? Não! Eu não queria conter! Mas o que as pessoas de outras ruas diriam quando me vissem daquele jeito… já havia rosas me saindo pela boca, pelo estômago… De tão feliz, eu pude ignorar a dor dos beliscões de uns espinhos que iam cercando aquele jardim de mim.
Mas continuei caminhando e a cada dez passos eu ia deixando o caminho iluminado de verdadeira luz: amarela. Não cabia acreditar! Tu tinhas seguido para um outro  lado e eu fiquei parado e derrepente a vida me surge. Ela sempre vem de estranhos modos…
 
Abri a mochila que eu carregava nas costas, joguei fora todas as minhas coisas (agora não valiam de mais nada!), cadernos, os livros do Hermann, o rosário de Nossa Senhora que fora benzido pelo Padre que já morrera, tudo ficou para trás. Ao espaço ganho, eu tentei, numa escolha inúltil, esconder todas aquelas rosas. Enfiei algumas nos bolsos, mas elas avançam agressivamente. E a cada tempinho, mais e mais surgiam.

  E a cada passo, mais luz! E tudo era sentido quando o cinza ia sendo substituido. Temia os risos, o vexante. Mas abri os punhos e fui-me deixando ser tomado. Eu tinha Vida naquele momento. Mas meu corpo já era o palco daquele estranhamento: eu tossia e na força fugiam petálas, minhas veias eram ramos, minhas calças sumiam e começavam a dar espaço ao que não mais o meu corpo.

Continuei andando e quando dei por mim a cidade começava a acordar. O primeiro portão se abriu, o segundo… um carro passava cheio de crianças mal educadas e curiosas, a velhinha era puxada pelo seu cachorrinho… a polícia passou devagarzinho ao meu lado, mas não parou.

E diferente de outrora, pude enxergar o quanto sem brilho e sem qualquer sorriso eram todos aqueles que por mim passavam….

Os olhos sempre arregalados, dedos me apontavam e meu caminhar continuei… alcancei a última esquina. Vi você do outro lado mas não me viste. Te acompanhei de longe ensaiando um sorriso, puxando a blusa amassada, ajustando o tênis. Mas não adiantaria: pensei eu. Tu tinhas era fome. Não compensa vir me sorrir sorriso sujo.
 
Corrias então para me alcançar e eu também ia de encontro, mas não nos demos conta do perigo e quando pude te tocar, você já havia se perdido… em meio a mim!


quarta-feira, 28 de março de 2012

À Retalho

É um estribilho, incessante, incansável. É mil cada nota soando, abstrada e torturante, quem dera não cortar os ossos.  A tortura é alívio para os que sofrem de coisa maior. O ínfimo é tua célula, é mãe, é força para se movimentar. De tuas colônias, se ver a esfacelar em dor, a pele, o estômago. Embebedas o próprio alcool já consumido. Tens força, mas és vida. Faz brotar nos poros o suor, que não é do calor do trabalho, é do sujeito pequeno em alma, menor em ser, por ser humano. Arrancas o suor da febre, do medo. Deixas trêmulo o corpo, já sem controle. Já sem vontade, mas és vontade.

Os sentidos tu aprimoras. É ardente o que apenas é pouco quente, é doente o que apenas dorme, é belo o que chora, é a compaixão daquele que não têm chinelos. É profundo. Tornas mais cansado o que já comera. És o tempo passando e as unhas  crescendo. E cresce, cresce.

Não é direção. Não é seguro, mas também não és a noite. És o fluido de cada espaço, por onde escorres. Não continhas, mas tu conténs. É luz, mas não é cor. Não advinhas, mas adverte.

É um estribilho, preciso corte no impreciso homem. Constante abundância no prato vazio. Poeira que incomoda nos olhos sujos daquele que pensa que ver o que não existe. É a certeza num mundo de sombras, povoado da ilusão. O silêncio de Beethoven é tua boca escancarada gritando, gritando, gritando. Os ouvidos ficam a zunir. É maior consideração no universo do que te abrigas. É pessoal, instransferível, indivisível, irredutível, inconstitucional.  

É a carne pungente, viva. Mas tu não matas. É a tua casa, a mesma que judias. É morada aberta, sem maldade. Mas vós sois arrogante, és cuspe. Devias assim fazer: interromper o curso, parar o pulso. Que no sono, durma,  que no sono se possa sonhar, enfim.

Mas não há o sono dos justos. O torpor não tranquiliza a indiferença. Não há como fugir. És absurda, absoluta segurança do que crava os pés dos homens no chão. E se fosse só por hoje? Mas se fosse até amanhã e amanhã fosse até o sempre? A dúvida é a angústia da existência. Melhor seria se o sempre fosse até o nunca mais.

Não há código, mas é língua estranha e não há quem decifre! É o sentido e faro. É a percepção, mas és dormência. Não és plano, és o cume. É afeto, afago, abraço, mas és áspero, vergonhoso, sem pudor. Não és polido, a ampla dimensão. O saber cavar com as mãos para além das veias, para além do corpo e depois do esforço viril, se encontrar com nada, mas que arde ali, bem onde imaginavas, mas não vês.  

Mato seco, em tom pastel. Mas é também o vermelho do verde a crescer. É o corpo se formando, respirando, doendo, morrendo. É o contente sim, mas também o apertado não. És combinação, mas também a repulsa. É o argumento, mas és vago. É a depedência dos atributos do sujeito e suas ações.  

É língua estranha, e não há quem decifre. É só sentido!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Fulguras, ó Falácia!

Entre quatro paredes ornamentadas com palavras do código sagrado, o retângulo de concreto entelhado, encontrava-se organizado com os seus bancos de madeira, feitos para acomodarem alguns fiéis do culto.
Vestidos estavam à la rigueur , a carater em função dos papéis ali a serem desempenhados naquela noite de assembléia de inertes.
Não se sabe de que negócio se trata, não se sabe de seus possiveis capitais e fluxos financeiros. Mas ‘a casa de Deus’ aglomera o circo dos desesperados. E o tal e tanto desespero é extiguindo mediante doação de moeda. Fato milagroso, poderia ser afirmado.
Mas que falácia! Não basta todo o paraíso, terras celestes e divinas; Deus ainda inventa de manter negócios aqui na Terra, haja vista essas inúmeras igrejas espalhadas por todas as esquinas destas pobres cidades.
O homem não evoluiu ao ponto de poder assumir seus proprios medos, desesperanças e cóleras. É tão fraco e tolo que se deixa levar por calúnias que acreditam ser a cura para os seus pecados.
Quem inventou o pecado? Talvez o mesmo malicioso e tão profundo conhecedor do divino, que se utilizou destas ideologias para propagar as disposições e permissões de algum ser incolor, invisível, imóvel.
De tão astuto que se sabia poder utilizar da ignorância alheia para lhe tirar algum dinheiro e ainda pregar o comportamento mecânico do permitido e do proibido.
Este que com a pior de todas as ideias, tirou do Homem a liberdade, a livre escolha, os caminhos laterais, as outras maneiras de se alcançar o mesmo caminho.
As centenas de milhares de retângulos de concretos entelhados, das arquiteturas mais humildes às mais belas, logo mais valiosas, instituiu no Homem o silêncio, o pior dos silêncios. E esta interrupção de auto conhecimento é a escuridão, infinita. Mas limitada no sentido de se impor limites ao livre pensamento.
É necessário que toda uma nação saiba ler. Ler mesmo! Ler! Saber o que significa cada palavra, cada sentido subjetivo, e sendo pessoal, somente pra ti guardar.
O mundo é hoje toda uma confusão, toda uma briga, que se deve a existência de tantos ‘eus’, a essa supervalorização do individual. Da mais bela unha pintada, do melhor cabelo, da melhor música, do mais criativo. É de obrigação que se manifeste um egoismo ao exterior, ao que querem os outros.
Mas como manifestar a universalização dos valores? O ser rijo, imbatível, o bem supremo pelo qual se conflitam tantos e tantos, é também o amor supremo, a verdade absoluta. Tanto coro, tantos hinos, tanto sangue, tanta guerra santa…
Quem Bem é este? Quer dizer que agora dois cálices cheios de sangue podem ocupar o mesmo lugar?
Fulguras, ó mentira! Que incendeia os corações humanos por algumas horas do culto e missa, mas que na rua são completos desconhecidos. Ao primeiro que ousar arremessar a pedra, cabe ao atingido devolvê-lo com o auxilio de outros dez amigos. A Lei é o olho por olho.
Ó, vergonha que sinto! Que tremor me atinge o corpo. Cabe a caridade a ajuda ao faminto, não destas palavras, mas faminto de comida mesmo. Ajuda ao por morrer, mão quente ao que sente frio. Curativos novos ao que vivem na rua.
Fiéis são do tão pouco humano! Ao falido humano! Seguidores do etnocentrico, do mais integro e perfeito. Mas o perfeito não há!
Qual melhor manifestação desse tal deus que envocam, se não na prória Natureza. Na perfeita disposição das folhas de uma árvore. No nascer de qualquer animal das vísceras ensanguentas. Na Terra como um planeta. No beijo, no roçar dos corpos, no suor. Qual melhor manifestação? Que da chuva, do Sol, da própria Vida.
O Homem que a partir da Natureza não conseguir perceber alguma inspiração, este é dos que Nietzsche dizia existirem: os que já nascem póstumos.
E ainda se pode completar, com palavras do poeta Augusto dos Anjos: “A mão que afaga é a mesma que apedreja” -Versos Íntimos.
Parafrasea-se, caminhando por  estas palavras: a mão que carrega o livro do Senhor, é a mesma que apedreja indefesos animais.


Que ninguém absorva estas palavras, nem de modo positivo ou negativo. É uma pessoal reflexão das estranhas e afetáveis manifestações humanas. É necessário pensar! Mas pensar em si mesmo, por si mesmo!

                                                                                                      
                                                                                                       Pablo Alves.