quarta-feira, 28 de março de 2012

À Retalho

É um estribilho, incessante, incansável. É mil cada nota soando, abstrada e torturante, quem dera não cortar os ossos.  A tortura é alívio para os que sofrem de coisa maior. O ínfimo é tua célula, é mãe, é força para se movimentar. De tuas colônias, se ver a esfacelar em dor, a pele, o estômago. Embebedas o próprio alcool já consumido. Tens força, mas és vida. Faz brotar nos poros o suor, que não é do calor do trabalho, é do sujeito pequeno em alma, menor em ser, por ser humano. Arrancas o suor da febre, do medo. Deixas trêmulo o corpo, já sem controle. Já sem vontade, mas és vontade.

Os sentidos tu aprimoras. É ardente o que apenas é pouco quente, é doente o que apenas dorme, é belo o que chora, é a compaixão daquele que não têm chinelos. É profundo. Tornas mais cansado o que já comera. És o tempo passando e as unhas  crescendo. E cresce, cresce.

Não é direção. Não é seguro, mas também não és a noite. És o fluido de cada espaço, por onde escorres. Não continhas, mas tu conténs. É luz, mas não é cor. Não advinhas, mas adverte.

É um estribilho, preciso corte no impreciso homem. Constante abundância no prato vazio. Poeira que incomoda nos olhos sujos daquele que pensa que ver o que não existe. É a certeza num mundo de sombras, povoado da ilusão. O silêncio de Beethoven é tua boca escancarada gritando, gritando, gritando. Os ouvidos ficam a zunir. É maior consideração no universo do que te abrigas. É pessoal, instransferível, indivisível, irredutível, inconstitucional.  

É a carne pungente, viva. Mas tu não matas. É a tua casa, a mesma que judias. É morada aberta, sem maldade. Mas vós sois arrogante, és cuspe. Devias assim fazer: interromper o curso, parar o pulso. Que no sono, durma,  que no sono se possa sonhar, enfim.

Mas não há o sono dos justos. O torpor não tranquiliza a indiferença. Não há como fugir. És absurda, absoluta segurança do que crava os pés dos homens no chão. E se fosse só por hoje? Mas se fosse até amanhã e amanhã fosse até o sempre? A dúvida é a angústia da existência. Melhor seria se o sempre fosse até o nunca mais.

Não há código, mas é língua estranha e não há quem decifre! É o sentido e faro. É a percepção, mas és dormência. Não és plano, és o cume. É afeto, afago, abraço, mas és áspero, vergonhoso, sem pudor. Não és polido, a ampla dimensão. O saber cavar com as mãos para além das veias, para além do corpo e depois do esforço viril, se encontrar com nada, mas que arde ali, bem onde imaginavas, mas não vês.  

Mato seco, em tom pastel. Mas é também o vermelho do verde a crescer. É o corpo se formando, respirando, doendo, morrendo. É o contente sim, mas também o apertado não. És combinação, mas também a repulsa. É o argumento, mas és vago. É a depedência dos atributos do sujeito e suas ações.  

É língua estranha, e não há quem decifre. É só sentido!