terça-feira, 23 de abril de 2013

A redenção do convalescente


Era fácil afirmar em Deus naquele momento a minha capacidade de optar por ser livre.  E ser livre era estar sem Ele. Sem Ele... meus momentos seriam arranhões e fisgadas e estalos de realidade itinerante  nada constante. Meu dias para mim mesmo seriam como ser baratas, estranhas o tempo todo, nojentas e repelentes.

Acordei rouco e fraco. Inspirado pela manhã convalescente, ponho-me a ouvir o Tom Waits, não que ele seja fraco, mas sua rouquidão punge meu café e não me agita. Uma manhã pintada feito paisagem morta, retratando nosso prato frio.

Vou ao banheiro, mijo e rijo o espelho e os dedos molhados. Molho em água fria , o rosto. Acordo quase sem vontade. Sem vontade é meu verbo, meu sujeito. E minhas ações correspondem a falta de querer o querer fazer sentido.

Caminhar por entre o seu dia-a-dia e de noite querer sorrir o que não se aproveitou no dia, conectando o sentindo e conjugando os passos rumo ao que se perdeu.

Em cada mão uma sacola vazia, vazia como o próprio espectro do que é, porque nada está, se não a própria ideia. Permutando a vontade, abre o zíper e estala o inquieto sono. Cansa-te e acelera-te o peito. 

Dorme!
Do sal o exato sal. Porque te sinto? Respiração pesada, cansada. Correste? Suponho que é só fuga. Do sal o sal e da vontade a embriaguez. Produto degenerativo da saliva-instinto dos gametas em pares.

Concorrendo com os dicionários a inteiriça vontade de significar. Gota-a-gota: o sonho. Sinto o cheiro do perfume que nunca senti; fragrância existencial do umbigo: vínculo.

Fôlego! Suspiro, alívio. Cabe o sono, o descanso, o peito quieto.

Fantasia! Ver o futuro para o sossego é fácil, é fácil pensar no futuro e tapar o vazio do ente oco, oco… é o eco ressoando tua instância: oco!

Eficaz é o tempo, vestido de dias passando, fazendo tua pele não ser mais a juventude. E o que fazes? Corre o gesso, o curativo, a tarja, tarja-preta.

Acelera e deprecia… é bruto contar assim. Não sou sujeito-social apartado do meu sujeito-subjetivo; penetrante, atento: sujeito-ação, ativo nos verbos de teus jeitos, ora passivos, submissos, aceitos.

Corri! Suei, óleo brotado. E na superfície do tangível, escorre a água fria do chuveiro, enrijecendo a carne nua.

Gota-a-gota, a chuva sem saber distorce a tinta do papel, desfazendo o construído à punho, revelado, surrado, no entanto, feliz.

Carismático pó: que alimenta, veste, inunda e fere. A dor e a dor de estar no corpo-ser do enquanto. 

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Da Carne


Poderia passar horas a espreitar e a querer os sólidos gemidos da outra, no entanto era necessário que se fosse a própria outra, encarnada e encenada na pele daquela que desejava seu desejo no mais ditame das mordidas dos lábios.

Talvez o mínimo que se pudesse era sentir o cheiro das toalhas com as quais eles se limpavam, após o gozo máximo, de ambos. Ela não mentia e nem omitia, via-se através dos latejantes espasmos; seus olhos como de um esquizofrênico ou de um epilético em transe transfundido consigo e com um outro eviscerado em tuas poses e posições.  

Ela espiava e se ardia. A mão descia e com aquela os dedos roçavam seus pelos e atritavam sua língua mais silenciosa em verbos, no entanto, uma histérica rouca e voraz.

Olhar pela porta era o seu Blues. Seus olhos também expunham seu possesso ser. Notava-se o quão quente estava a água que caía do chuveiro. Todo espelho embaçado, toda testa suada, mamilos rígidos.

O próprio Deus ter-se sido herege no momento em que criara tal poética-carne, fora herege com seu deus. No que pensava? Era o que a espiã imaginava no toque de sua inveja e jorro peculiar. Acariciava seus próprios lábios, sendo ela a outra, a que verdadeiramente sentia ao sentar o corpo no vibrião-homem.

 A carne e sua temperatura é motriz enquanto vivos. As unhas crescendo, os cabelos e os pelos, os dentes permanentes e tortos. As pernas, os seios, os olhos... os olhos que enxergam o próprio sentir, estes que percebem pela pele esguia e murcha a atuação de nosso ser: o tempo.

Abra a boca de tanto querer e gesticule a língua. Movimente-a e cuspa! É o nervoso: o sistema central e o seu periférico. Equilibra os corpos o que foge da epiderme. O suor nos contrai. O peito arrogante acelera, atordoa. Arritmia, adrenalina, arrepio.

De fato ela sabia a desgraça: de fato! Era ponto o senso do outro. Não se sente o ser objeto de desejo, sente-se o que há em si. É só ideia. O outro é apenas pretexto para o alcance do que ser quer atingir. O outro é apenas a língua-palavra do sexo mudo. Eu o próprio orgasmo de mim, em mim.

Tão logo a toalha enxuga. A roupa veste, os dois se olham. Um beijo, um selo, sem mais sentir.

 O beijo é a ideia do beijo. Guardado e reciclado. 

domingo, 3 de fevereiro de 2013

A decomposição íntima


Nietzsche já havia dado o alerta, não que fosse a força de expressão, tampouco uma vacina, no entanto, assim dessa forma eu deveria ter recebido. Não cabe aqui a admissão de um tigre que fora tornado um ser qualquer venenoso, de espécie constante na raça humana. Mas o tigre não se elege, todavia não vive da fraqueza.

Entretanto fora feita a bruta transição: da altivez em sujeira estúpida, imposta! Ao se confrontar demasiadamente com um monstro, em monstro também foste transformado.

O abismo do estômago agora abriga o ácido conteúdo de si e que arroto e que anseio, soluçando. Tornar-te frio a pele e o cobertor, mas não mataste o teu abrigo, não seria portador de tamanha coragem assim. Mas era de se esperar: parasitas não matam seus hospedeiros.

A pele arranhada precisava de amparo.  A compulsão sinestésica queria o quente do gosto do lábio. O cinza do cheiro dos teus cigarros. E das cinzas guardadas feito dos restos de alguém se guarda num frasco de vidro, eu tentei fumar os teus restos. Lembrei-me assim do cheiro, do teu. Era aquele mesmo incenso.

Os sinos e os berros, seguidos das latas de cerveja, puseram na língua o amargo maior. A música dizia o que o amor é a dois, quando só assim se transfigura o olhar para consigo mesmo, ao se enxergar nos olhos não mais alheios, mesmo sendo os olhos do outro.

 O sincronismo antes não rítmico, agora é valor. Os pulmões, as sinapses, o suor, os dedos se entrelaçando com o objetivo de si mesmo, encontrado e habitado agora naquele que fora outrora inexistente.
Eu respiro. Tu respiras no meu sentido em que o faço. Puxamos-nos, nos gememos tudo em coexistência. Eu vivo em reticência, mas não poderia eu-ser, se tu não fosses os pontos que me compõem.

 Bebemos nossos cuspes e rejeições, mas trafegamos logo em seguida em nossos corpos-nossos. O meu era o meu e o teu também era o meu, assim como eu foste teu e tu o teu mesmo. Éramos petreamente as cláusulas de nosso suborno, constituído e legislado com nosso egoísmo traficante.

A virilidade no talo tecia grunhidos e mordidas, ao passo que o corpo era feito abrigo no sono e proteção e segurança nos momentos de medo e choro.

A virilidade no talo era devolvida com abraços e mãos sinápticas, cheias de corrente elétrica do nós, configurado e verbalizado com os pronomes de tratamento  sentimentais, tentando dar mais propriedade ao nosso tráfico de fluidos bucais, cheirando nossas genitálias rígidas. 

Gagueira, empate! Paralisia, pernas trêmulas. Assim vencíamos, e um pós-assalto orgástico cheio de levezas, dormíamos. Eu agarrado ao teu corpo, nós dois feitos um nó. Derrepente solidão.

E com ela tenho estado, portanto, não tão só assim. É impossível que se esteja sozinho, quando na verdade há uma companheira nos soprando nossos íntimos recalques, a doce solidão da solidão, de se estar só para o mundo e tão próximos de nosso deus interior.

E assim foi feito: folhas secas nelas quase sempre pisaram. E o que compõem os berros ao mutilar com os pés?