Como são sutis as noites de sábado, sutis quando se
fala em poder respirar até encher os pulmões sem preocupações e sem pressa de
respirar, pois o dia seguinte é domingo e vamos dormir até mais tarde.
A turma já tinha sido avisada desde a quarta-feira,
quarta já é véspera de fim de semana. Como é bom saber da existência dos fins
de semana, melhor então é vivê-los… que grande pecado comete aquele que não
existe às sextas, sábados e a tardes de domingos, cada um tem uma energia
única!
Domingo era sabido que iamos ao Parque (da Cidade),
porquanto aquela noite de sofá da sala, um show da Legião e outro do Cure que
conseguimos milagrosamente através da Internet, as bebidas bem geladas que não
podiam faltar (sem elas ficariamos apáticos e sem assunto) e uma boa dose de
dor de cotovelo e amores não correspondidos sobre os quais falariamos depois de
uns copos de vinho.
Eu ria-me da nossa capacidade de discussão sobre os
problemas globais: a política que se aninhava a tal da Justiça, que por sua vez
tinha as mãos coladas com super bonder aos rastelos do Estado. Sempre
comentavamos Astrologia, que de certo modo lustrava o nosso ego (nunca
ressaltavamos os aspectos ruins de cada signo)
O primeiro de nós era sempre o primeiro a chorar, era
feito criança, mas dessas que reclama que ninguém abraça, mas que também
estranha quando o recebe. Chorava e chorava e engulia a bebida!
Eu estava ali,
rechonchudo de expectativas para o dia seguinte, porém recolhido e ouvindo os
comentários dos outros que ali naquela sala me faziam companhia.
Tomei mais um copo e como sempre, ao perceber certas
confusões mentais e corpóreas, após os vários vinhos, eu me prometia a
liberdade! E nela estava afincando e trocamos figurinhas de paisagens
bucólicas, singulares e felizes…
A Aninha estava entre mim e o Pedro. Do canto do sofá
onde eu havia me posto, era ponto de estratégia para que dali eu ficasse
espionando os pêlos das pernas do Pedro. Como eu amava acompanhar aquele
desenho de corpo e vida! E aquela boca circunspecta. Ele sempre cheio de toda
aquela masculinidade e ao mesmo tempo todo menino. quanto encanto em um único
sujeito.
A Aninha bem sabia da minha derrota…eu estava no
inferno de tanta paixão por ele, mas estava em processo de recuperação e
limpeza…
Mas não hesitava em exibir aquele olhar de quem muito
deseja e deseja e quer… quer morder, quer tudo: todo corpo e o suor e as mordidas!
Rimos nós dois: Eu e Aninha, no momento em que em
deslizei meus pés na perna dela, na tentativa de chamar a atenção de quem
estava no outro extremo daquele assento.
Fiquei puto derrepente, porque tenho lá os meus
momentos bipolar, não nego! Levantei-me, tirei o show que estava passando e
comecei a procurar na bagunça de CDs da gaveta um disco qualquer. Encontrei o
do Cartola… “deixe-me ir, preciso andar,
vou por aí a procurar, rir pra não chorar…” Pronto! Acabei-me todo. Bebi
mais um copo!
Sentei novamente no mesmo lugar. Que puta vontade de
estar sentado em outro canto, em um colo de alguém, mas não podia. Havia muitas
regras e não me dou bem com as regras…
Subitamente a Aninha se levantou e foi até o banheiro.
Todos nós que
ficamos ainda ali na sala, nos olhamos e então o comentário coletivo: não durma
no banheiro de novo… Ela sempre dormia no vaso sanitário e era uma frustação
tentar acordá-la, porque na tentativa, não só a acordávamos como também todos
os vizinhos.
E o Cartola
cantava longemente e eu cantarolava em cabeça: e tudo o que ofereço é meu
calor, meu endereço… o que não tinha nada a ver a com ele!
Derrepente e é lógico que não esperavámos, a Aninha
soltou um berro do mais alto volume lá dentro do banheiro e num salto eu corri
para ir ver o que havia acontecido…
Ficamos ali na porta, os quatro, junto à Ana, pálidos
de susto, amarelinhos… misturado ao silêncio da perturbação e me perguntei: que
diabos ela viu, por acaso algum fantasma, um espírito, sei lá… aquele palhaço
horrendo de estranho do filme do Stephen King? Não sabíamos.
Ela continuava encostada na parede, de pé e olhando
para o espelho. No improviso e em poucos instantes estávamos todos olhando para
o mesmo ponto, aquele que nos mostrava o que suspeitávamos conhecer que éramos
nós mesmos.
Pude perceber as gotículas de creme dental respingados
ali naquele superfície reflexiva. E de tão reflexiva que fez a Aninha gritar a
todo pulmão!
É! Havia concluído: era o súbito dos olhos que ela via
ali, vazios, desconexos, o busto magro, o corpo todo esguio.
Como nunca eu podia ter notado aquilo? Eu jamais havia
olhado em meus próprios olhos e feito sequer alguma pergunta a mim mesmo. Tinha
sido por covardia? E me conduzia aos obstáculos e denúncias do meu pequeno
sujeito interior: sujinho. E como havia sido eu um estúpido. Todas as coisas
lindas, os detalhes mais pudicos eu lhe tinha posto por olhos a dentro e via em
você o que gostaria de ver em mim. Talvez.
Nos despedimos no portão e cada um seguiu um rumo para
casa. Fui para a cama e fiquei aguardando aciosamente a tarde de domingo que
estava por vir… era sempre naqueles instantes que eu me esquecia: de mim e de
você, nos bares cheios de solidão!