quinta-feira, 26 de abril de 2012

Ópera da Fome: as flores


Guardei os restos da flor, daquela que havíamos encontrado no meio da rua. Como combinado: eu ficaria com uma parte e você com outra, mas acho que você levou a vantagem… tenho hoje apenas três petálas e um pedacinho de folha.  Ficaram tão diferentes desde aquele ilustre dia de uma manhã nada igual. Amanhacemos a nossa estrada chutando flores. Que bom, não é? Mas sempre ficam as dúvidas. Se foram jogadas por sua árvore, significa que estão fadadas a morte escura em poucas horas.
 
Lembro-me que quando nos deparamos com aquela rua toda tomada por aquele amarelo, intenso, pegamos a mesma florzinha, recolhida e tímida. Pegamo-lá com tal desejo que era o mesmo de quem sente grande fome. Os nossos dedos desejavam aquele sentir… como queria apertá-la, mas sabíamos que era tão frágil, tão simples, tão qualquer coisa de vulnerável, que a machucaria qual o golpe ao cair ao chão.
 
Percebi nós dois como únicos no mundo naquele instante, além da árvore e de suas flores caídas no asfalto sujo, cheio de restos de outros dias. Quão silenciosos são os instantes de contato.
 
Guardei a flor! E eu que até então era um boneco de lata, surgia-me um pungente coração: de pétalas amarelas. Eu sentia bater e florescer dentro de mim cada vez mais e mais… E como conter? Não! Eu não queria conter! Mas o que as pessoas de outras ruas diriam quando me vissem daquele jeito… já havia rosas me saindo pela boca, pelo estômago… De tão feliz, eu pude ignorar a dor dos beliscões de uns espinhos que iam cercando aquele jardim de mim.
Mas continuei caminhando e a cada dez passos eu ia deixando o caminho iluminado de verdadeira luz: amarela. Não cabia acreditar! Tu tinhas seguido para um outro  lado e eu fiquei parado e derrepente a vida me surge. Ela sempre vem de estranhos modos…
 
Abri a mochila que eu carregava nas costas, joguei fora todas as minhas coisas (agora não valiam de mais nada!), cadernos, os livros do Hermann, o rosário de Nossa Senhora que fora benzido pelo Padre que já morrera, tudo ficou para trás. Ao espaço ganho, eu tentei, numa escolha inúltil, esconder todas aquelas rosas. Enfiei algumas nos bolsos, mas elas avançam agressivamente. E a cada tempinho, mais e mais surgiam.

  E a cada passo, mais luz! E tudo era sentido quando o cinza ia sendo substituido. Temia os risos, o vexante. Mas abri os punhos e fui-me deixando ser tomado. Eu tinha Vida naquele momento. Mas meu corpo já era o palco daquele estranhamento: eu tossia e na força fugiam petálas, minhas veias eram ramos, minhas calças sumiam e começavam a dar espaço ao que não mais o meu corpo.

Continuei andando e quando dei por mim a cidade começava a acordar. O primeiro portão se abriu, o segundo… um carro passava cheio de crianças mal educadas e curiosas, a velhinha era puxada pelo seu cachorrinho… a polícia passou devagarzinho ao meu lado, mas não parou.

E diferente de outrora, pude enxergar o quanto sem brilho e sem qualquer sorriso eram todos aqueles que por mim passavam….

Os olhos sempre arregalados, dedos me apontavam e meu caminhar continuei… alcancei a última esquina. Vi você do outro lado mas não me viste. Te acompanhei de longe ensaiando um sorriso, puxando a blusa amassada, ajustando o tênis. Mas não adiantaria: pensei eu. Tu tinhas era fome. Não compensa vir me sorrir sorriso sujo.
 
Corrias então para me alcançar e eu também ia de encontro, mas não nos demos conta do perigo e quando pude te tocar, você já havia se perdido… em meio a mim!


Nenhum comentário:

Postar um comentário