quarta-feira, 3 de abril de 2013

Da Carne


Poderia passar horas a espreitar e a querer os sólidos gemidos da outra, no entanto era necessário que se fosse a própria outra, encarnada e encenada na pele daquela que desejava seu desejo no mais ditame das mordidas dos lábios.

Talvez o mínimo que se pudesse era sentir o cheiro das toalhas com as quais eles se limpavam, após o gozo máximo, de ambos. Ela não mentia e nem omitia, via-se através dos latejantes espasmos; seus olhos como de um esquizofrênico ou de um epilético em transe transfundido consigo e com um outro eviscerado em tuas poses e posições.  

Ela espiava e se ardia. A mão descia e com aquela os dedos roçavam seus pelos e atritavam sua língua mais silenciosa em verbos, no entanto, uma histérica rouca e voraz.

Olhar pela porta era o seu Blues. Seus olhos também expunham seu possesso ser. Notava-se o quão quente estava a água que caía do chuveiro. Todo espelho embaçado, toda testa suada, mamilos rígidos.

O próprio Deus ter-se sido herege no momento em que criara tal poética-carne, fora herege com seu deus. No que pensava? Era o que a espiã imaginava no toque de sua inveja e jorro peculiar. Acariciava seus próprios lábios, sendo ela a outra, a que verdadeiramente sentia ao sentar o corpo no vibrião-homem.

 A carne e sua temperatura é motriz enquanto vivos. As unhas crescendo, os cabelos e os pelos, os dentes permanentes e tortos. As pernas, os seios, os olhos... os olhos que enxergam o próprio sentir, estes que percebem pela pele esguia e murcha a atuação de nosso ser: o tempo.

Abra a boca de tanto querer e gesticule a língua. Movimente-a e cuspa! É o nervoso: o sistema central e o seu periférico. Equilibra os corpos o que foge da epiderme. O suor nos contrai. O peito arrogante acelera, atordoa. Arritmia, adrenalina, arrepio.

De fato ela sabia a desgraça: de fato! Era ponto o senso do outro. Não se sente o ser objeto de desejo, sente-se o que há em si. É só ideia. O outro é apenas pretexto para o alcance do que ser quer atingir. O outro é apenas a língua-palavra do sexo mudo. Eu o próprio orgasmo de mim, em mim.

Tão logo a toalha enxuga. A roupa veste, os dois se olham. Um beijo, um selo, sem mais sentir.

 O beijo é a ideia do beijo. Guardado e reciclado. 

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