Poderia passar horas a espreitar
e a querer os sólidos gemidos da outra, no entanto era necessário que se fosse
a própria outra, encarnada e encenada na pele daquela que desejava seu desejo
no mais ditame das mordidas dos lábios.
Talvez o mínimo que se pudesse
era sentir o cheiro das toalhas com as quais eles se limpavam, após o gozo
máximo, de ambos. Ela não mentia e nem omitia, via-se através dos latejantes
espasmos; seus olhos como de um esquizofrênico ou de um epilético em transe transfundido
consigo e com um outro eviscerado em tuas poses e posições.
Ela espiava e se ardia. A mão
descia e com aquela os dedos roçavam seus pelos e atritavam sua língua mais
silenciosa em verbos, no entanto, uma histérica rouca e voraz.
Olhar pela porta era o seu Blues.
Seus olhos também expunham seu possesso ser. Notava-se o quão quente estava a água
que caía do chuveiro. Todo espelho embaçado, toda testa suada, mamilos rígidos.
O próprio Deus ter-se sido herege
no momento em que criara tal poética-carne, fora herege com seu deus. No que
pensava? Era o que a espiã imaginava no toque de sua inveja e jorro peculiar.
Acariciava seus próprios lábios, sendo ela a outra, a que verdadeiramente sentia
ao sentar o corpo no vibrião-homem.
A carne e sua temperatura é motriz enquanto
vivos. As unhas crescendo, os cabelos e os pelos, os dentes permanentes e
tortos. As pernas, os seios, os olhos... os olhos que enxergam o próprio
sentir, estes que percebem pela pele esguia e murcha a atuação de nosso ser: o
tempo.
Abra a boca de tanto querer e
gesticule a língua. Movimente-a e cuspa! É o nervoso: o sistema central e o seu
periférico. Equilibra os corpos o que foge da epiderme. O suor nos contrai. O
peito arrogante acelera, atordoa. Arritmia, adrenalina, arrepio.
De fato ela sabia a desgraça: de
fato! Era ponto o senso do outro. Não se sente o ser objeto de desejo, sente-se
o que há em si. É só ideia. O outro é apenas pretexto para o alcance do que ser
quer atingir. O outro é apenas a língua-palavra do sexo mudo. Eu o próprio orgasmo
de mim, em mim.
Tão logo a toalha enxuga. A roupa
veste, os dois se olham. Um beijo, um selo, sem mais sentir.
O beijo é a ideia do beijo. Guardado e
reciclado.
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